Print this page

RASTOS DA MINHA MEMÓRIA JUNTO AO SAUDOSO CAMARADA LU-OLO Featured

By Major Jenerál "Coliati" junho 24, 2026 137
Major Jenerál F-FDTL "Coliati" Major Jenerál F-FDTL "Coliati"

Falar do saudoso camarada Lu-Olo não é apenas recordar um líder político ou uma figura histórica da nossa luta. Para mim, é recordar um companheiro de jornada, um irmão de luta, um homem de convicções firmes, de coragem inabalável e de profunda lealdade à causa da libertação nacional.

As memórias que guardo dele estão marcadas por momentos difíceis, por decisões históricas e por sacrifícios imensos em prol da liberdade do nosso povo.

Conheci o saudoso camarada Lu-Olo em Outubro de 1998, nas áreas de Viqueque, numa zona então conhecida por Debu, durante a última e uma das mais importantes conferências da Resistência. Esse foi um dos momentos mais decisivos da nossa luta.

Naquela altura, decorriam intensas discussões em torno da transformação do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM) em Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), bem como da reorganização estratégica da luta em novas frentes de combate político e militar.

Foi igualmente nesse contexto que, em unanimidade, se reafirmou a confiança da liderança nacional no Comandante-em-Chefe das Falintil, Maun Boot Xanana Gusmão, que naquele momento se encontrava nas mãos do inimigo, detido nas celas de Cipinang, na Indonésia.

Recordo-me claramente da posição do saudoso camarada Lu-Olo nesse debate histórico.

Ele manteve-se firme na sua convicção de discordar daquela transformação. A sua posição não nascia de teimosia, mas sim de princípios, de visão política e de uma profunda preocupação com o rumo da luta nacional.

Com razão, ele via o enorme sacrifício já feito pelo nosso povo — mais de 300 mil vidas dizimadas ao longo da ocupação — e sentia o peso de tudo aquilo que tinha sido construído com sangue, sofrimento e resistência.

Mas, ao mesmo tempo, aproximava-se o momento em que o rai hun mutin começava finalmente a surgir no horizonte. O amanhecer da liberdade começava a tornar-se visível aos olhos de todos nós.

Após longas discussões e sucessivas aproximações feitas pela liderança das Falintil, o saudoso camarada Lu-Olo acabou por aceitar essa mudança estratégica.

Esse episódio revelou claramente a grandeza do seu carácter.

Era um homem firme nos seus princípios e convicções, mas também um líder maduro, capaz de colocar o interesse maior da Nação acima das posições pessoais.

Essa era uma das suas maiores virtudes: firmeza aliada a um profundo sentido de responsabilidade histórica.

Durante a fase de transição pós-referendo, quando as Falintil das quatro regiões se concentraram no acantonamento de Aileu, eu desempenhava funções como Adjunto do Secretariado do Comando das Falintil.

Foi nesse contexto que vivi de perto vários momentos históricos ligados à transformação das Falintil nas futuras F-FDTL.

Em 1 de fevereiro de 2001, realizou-se a cerimónia do primeiro recrutamento das F-FDTL, marcando oficialmente o nascimento das Forças de Defesa de Timor-Leste.

Um episódio que guardo com particular emoção relaciona-se com a arma pessoal do saudoso camarada Lu-Olo.

Na altura, propus ao Senhor Chefe do Estado-Maior das Falintil a realização de uma cerimónia solene de despedida e entrega oficial da arma do camarada Lu-Olo ao Comando das Falintil.

O significado desse gesto era profundamente simbólico.

Representava a presença histórica da Fretilin ao lado das Falintil durante todo o processo da resistência e da libertação nacional.

Representava também a filosofia que guiou a nossa luta:

“A política comanda o fuzil.”

Infelizmente, apesar da profunda carga histórica e simbólica dessa proposta, o meu esforço não obteve resposta positiva por parte do Comando no acantonamento de Aileu.

Ainda hoje guardo essa memória com alguma tristeza, porque acredito que teria sido um momento de elevado valor histórico para as futuras gerações.

Outra memória profundamente marcante aconteceu em 2000, na véspera da cerimónia comemorativa do 28 de Novembro, data da Proclamação Unilateral da Independência.

Na ausência de uma figura da Presidência da República para proceder à leitura oficial do texto da proclamação, fui incumbido pelo saudoso camarada Lu-Olo, na sua qualidade de Presidente da Fretilin, de fazer essa leitura durante a parada comemorativa em Aileu.

Recebi essa missão com grande honra.

Até hoje considero esse gesto uma demonstração da confiança que o camarada Lu-Olo depositava em mim.

Uma outra memória importante remonta a 1997, durante o Congresso da Fretilin realizado em Sydney, Austrália, sob liderança do camarada DR. Mari Alkatiri.

Nesse congresso, fui nomeado, juntamente com o saudoso camarada Lu-Olo e outros companheiros, como membro do Comité Central da Fretilin da terceira geração.

Foi um momento de enorme responsabilidade política, numa fase em que a luta exigia unidade, coragem e visão estratégica.

O meu último encontro com o saudoso camarada Lu-Olo aconteceu em 2025, durante a cerimónia de entrega de certificados de reconhecimento aos membros do Comité Central da Fretilin, realizada no Salão Maubai, no edifício do Conselho Nacional dos Combatentes da Libertação Nacional.

Sem saber, aquele seria o nosso último encontro.

Hoje, ao recordar o saudoso camarada Lu-Olo, sinto que não recordo apenas um líder histórico.

Recordo um camarada de luta.

Recordo um homem de convicções.

Recordo um patriota íntegro.

Recordo um combatente que dedicou a sua vida inteira à libertação e à construção de Timor-Leste.

Homens como Lu-Olo não desaparecem.

Continuam vivos na memória da Nação, na história da Resistência e no coração de todos aqueles que caminharam ao seu lado.

O seu nome ficará para sempre gravado entre os grandes filhos desta pátria.

Descansa em paz, saudoso camarada Lu-Olo.

A tua luta, o teu sacrifício e o teu legado permanecerão eternamente vivos entre nós.

Até sempre, camarada.

Coliati

Rate this item
(1 Vote)
Last modified on quarta, 24 junho 2026 16:27